Você aprendeu a FICAR SÓ?

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Uma das capacidades mais importantes no desenvolvimento psíquico e emocional de uma pessoa é sua maior ou menor habilidade para ficar sozinha, por certos períodos de tempo, sem que isso incorra em algum tipo de sofrimento, seja ele o tédio, medo ou angústia. Essa característica da personalidade, no entanto, não nos é natural, mas sim aprendida na mais tenra infância.

Foi Donald Winnicott, médico pediatra e psicanalista britânico, quem teorizou sobre o que estou apontando, em um texto de 1958 chamado: A capacidade de ficar sozinho. Segundo ele, essa habilidade adquirida ao longo do desenvolvimento é essencial para uma vida criativa e emocionalmente saudável. O bebê aprende isso, pela primeira vez, na presença da mãe ou da figura materna que estiver presente no ambiente.

Imagine um bebê que aprendeu a engatinhar. A mãe o deixou sentado no tapete da sala e foi cuidar do almoço. Então o bebê começa a explorar o ambiente ao seu redor. Assim, ele engatinha até o quarto da casa e, de repente, se dá conta que a mãe não está presente e começa a chorar. De imediato, a mãe vai ao seu encontro, pega no colo, afaga e beija. Todo o desconforto de sentir-se sozinho do bebê é interrompido, dando lugar para um sentimento de segurança, conforto e prazer.

A repetição desta cena por dezenas, centenas de vezes, opera como uma espécie de treinamento, de aprendizado. Com o tempo, a criança vai se habituando a ficar sozinha e começa a ficar entretida na exploração do ambiente e seus objetos, demorando-se cada vez mais nessa experiência de ficar só. Aprende essa capacidade, paradoxalmente, na presença da figura materna, a partir de pequenas falhas (demoras) na resposta ao choro.

Tais “falhas” no ambiente são importantes para o desenvolvimento sadio do bebê. Nas palavras de Winnicott, um ambiente suficientemente bom oferece falhas controladas. Entretanto, se este ambiente falhar demasiadamente, por mais tempo do que o bebê possa suportar, isso pode gerar um trauma: um acontecimento para o qual o ego do bebê ainda não tem defesas organizadas. Em resposta, o que ele aprende é que não pode ficar sozinho, pois isso o remete ao trauma original.

A capacidade de ficar só é um sinal inequívoco de amadurecimento no desenvolvimento emocional, assim como a sua ausência expõe uma vulnerabilidade, decorrente, como disse, de uma falha ambiental na qual o bebê ou a criança na primeira infância foi exposta. Com efeito, esse amadurecimento ou vulnerabilidade vai marcar os modos de ser e existir de uma pessoa.

Ficar só se refere à noção de solitude, e não à solidão ou isolamento, condições indesejadas e associadas à tristeza ou abandono. Enquanto a solidão é frequentemente vista como algo negativo, a solitude pode ser encarada como uma experiência positiva e enriquecedora: uma habilidade da pessoa estar confortável consigo mesma, inclusive na presença de outras. Envolve estar só, mas com um sentido de paz, reflexão, autossuficiência e plenitude. Pode ser uma oportunidade para introspecção e crescimento pessoal.

As consequências negativas para alguém que não aprendeu a ficar só são muitas. Desde agravos em saúde mental, uma vez que a falta de habilidade para lidar com a solidão pode levar a sentimentos persistentes de tristeza e ansiedade, até mesmo dificuldades em relacionamentos, pois a pessoa pode acabar excessivamente dependente dos outros, dificultando relações saudáveis e autênticas. Baixa autoestima também pode surgir, na medida em que a dependência emocional leva a pessoa a sentir que não é capaz de se cuidar sozinha.

Por outro lado, temos uma boa notícia. Capacidades ou habilidades podem ser aprendidas durante todas as fases da vida. Com a capacidade de ficar só não é diferente. Se precisar de ajuda ou quiser discutir mais sobre o tema, estou à disposição! (Ilustração: internet)